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Texto: A  Páscoa, Pandemia e o Arquétipo de Vida e Morte

08 de Abril de 2020
Fabrício Fonseca Moraes

 

A Pandemia da COVID-19 em 2020 produziu imagens marcantes: fila de caminhões do exército na Itália levando centenas de mortos; o Papa Francisco celebrando sozinho na praça/basílica de São Pedro, ruas vazias, pessoas assustadas por trás de suas máscaras, falas fortes como de Dráuzio Varella “Esquece sua vida normal”, em grupos junguianos vi um anseio por nomear “qual o arquétipo ativo nesse momento? ”. Em meio a sensação de luto e estranheza de nossos dias, meu filho de 7 anos diz que estava triste que esse ano não teria páscoa. Fui explicar o significado e sentido da páscoa (começando assistindo o filme animado “O príncipe do Egito” de 1998) e explicando a páscoa de Cristo.

 

Essa experiência me fez pensar o quanto a experiência comercial/capitalista muitas vezes nos afasta de um símbolo cultural tão importante para os cristãos como a páscoa. No campo religioso, a páscoa tem sua origem, segundo as narrativas bíblicas, com a libertação do povo de Israel do Egito, por meio do profeta Moisés. A páscoa judaica ou pessach (geralmente traduzida como passagem) também é conhecida como a festa da libertação, sendo uma das festas judaicas mais importantes. A páscoa cristã tem como marco o sofrimento, morte e ressurreição de Cristo.

 

Em cada uma das tradições, as celebrações que marcam a transição. A páscoa judaica há uma reflexão marca passagem do sofrimento, escravidão para a liberdade. No contexto cristão do mesmo modo há uma passagem do sofrimento, morte e de cristo para a ressureição e vida com Cristo. Em cada uma das tradições há uma ampla ritualística que possibilitam aos fiéis tomarem parte da vivência religiosa – cada judeu vive o drama de seu povo e de sua libertação; por outro lado cada cristão vive o drama dos discípulos com a morte e crucifixão e sua alegria com a ressurreição, como afirmou Mircea Eliade “o rito é a atualização do mito”, em seu livro o Sagrado e o Profano.

 

A Páscoa é uma vivência simbólica que integra a dinâmica do Arquétipo da Vida e da Morte que foi descrito discutido por Carlos Byinton no trabalho “O Arquétipo da Vida e Morte – um estudo de psicologia simbólica”, segundo ele

o Arquétipo da Vida e da Mor­te tem a função estruturante de selecionar aqui­lo que deve ser mantido ou descartado durante o processo. O que deve ser mantido pertence à Vida e sua elaboração precisa continuar. O que deve ser descartado pertence à Morte e não tem mais que ser elaborado, ao menos naquela etapa do processo. O polo Vida do Arquétipo é expres­so pelas funções estruturantes do interesse, da curiosidade, do fascínio, da conquista, do ganho e da euforia. O polo da Morte se expressa pelas funções estruturantes da indiferença, do desin­teresse, da perda, do sacrifício, do desapego, do desânimo, da depressão e do luto. Devido à sua função primordial no processo, o Arquétipo da Vida e da Morte está sempre presente na elaboração simbólica de todos os símbolos e fun­ções estruturantes. A interação desta polaridade é tão profunda e intensa que seu conhecimento e compreensão, na normalidade e na patologia, são uma das pérolas, se não a maior pérola da arte existencial. (BYNGTON, 2019, 193-4)

A agressividade da pandemia nos colocou num processo coletivo de luto (seja de entes queridos, financeiras, trabalho, rotinas, viagens, liberdade etc.), ou seja, diante da polaridade da Morte deste arquétipo. Por outro lado, vivemos durante muito tempo fixados no polo numa fantasia de potência, expansão, invulnerabilidade próprios da polaridade da vida. A cisão da dinâmica arquetípica da Vida e Morte, se faz manifesta na dificuldade de elaborar a transformação que se impõe nesse momento, em fixar o olhar nas perdas. A pólo da Morte indica justamente o limite, finitude e a retirada de energia dos objetos (internos e externos) e, sob certo aspecto, envolve a sensação perda de quem éramos para encontrar uma nova perspectiva de quem podemos ser. Esse processo pode ser doloroso e lento, pois cada um precisa de seu próprio tempo para vivenciar seu luto e reescrever a vida que se faz em meio as perdas e morte.

 

Em seu aspecto defensivo, sombrio, a polaridade arquetípica da morte se manifesta no medo da perda, cuja fixação e impede a elaboração e integração de novos símbolos de transformação. Contudo, podemos integrar criativamente do polo da morte poderia se dar através da renúncia e solidariedade. Quando compreendemos a gravidade da pandemia e decidimos renunciar temporária liberdade respeitando o isolamento social, nos colocamos ativamente responsáveis pelo cuidado e compromisso nós mesmos e com os outros. A renúncia implica no cuidado e a solidariedade na compreensão, apoio e auxílio das pessoas mais vulneráveis e em situação de risco significa olhar através da dor, do medo e morte e vislumbrar a esperança, que é a renovação da vida. A solidariedade implica em nos tornar parte ativa da coletividade – onde as trocas afetivas nos nutrem e fortalecem no enfrentamento das adversidades.

 

A experiência simbólica da páscoa nos move em direção à transformação da morte em vida, do aprender a sermos livres e liberdade implica em cuidado e responsabilidade nós mesmos e com os outros, de termos esperança que mesmo na noite mais escura o sol nascerá dissipará toda escuridão.

 

De fato, a pandemia é um grande desafio e nossa realidade (ou mundo) não será mais o mesmo. Como será esse mundo? Depende das escolhas que fazemos hoje – por nós e pelos outros.   



 

Referencia

 

BYINGTON, Carlos Amadeu B.. O arquétipo da vida e da morte: Um estudo da Psicologia Simbólica. Junguiana,  São Paulo ,  v. 37, n. 1, p. 175-200,   2019 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-08252019000100008&ln            ‘gd=pt&nrm=iso . acessos em  06  abr.  2020.

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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