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Texto - Considerações sobre o “Eficaz”no texto “Os objetivos da Psicoterapia” de C.G.Jung

17 de Setembro de 2017
Fabrício Fonseca Moraes

(Texto publicado originalmente no blog "Jung no Espirito Santo" em 18 de maio de 2013)

 

Este texto surgiu de uma discussão no Grupo Aion de estudos Junguianos acerca do texto“Os Objetivos da Psicoterapia” do livro A prática da Psicoterapia. Este texto de Jung é realmente interessante para quem quer conhecer um pouco mais acerca da psicoterapia junguiana. Nesse texto, Jung apresenta uma noção importante para a prática da psicoterapia que é explicitada no termo “eficaz”. Apesar de  aparecer poucas vezes no texto, acredito que valha a pena pensarmos a psicoterapia com a perspectiva desse termo.

Jung afirma que

“Não é preciso provar que minha maneira de interpretar o sonho está correta. Não teria sentido. Mas, o que é preciso fazer é procurar, junto com o paciente, o fator eficaz – quase ia dizendo, a coisa verdadeira”(JUNG, 1999, p. 42, §94)

Um tema recorrente aos textos de Jung acerca da prática da psicoterapia é a sua insistência em afirmar a impossibilidade de “determinar” ou “delimitar” o  “método junguiano” propriamente dito, no máximo,  poderia-se  indicar seus fundamentos. Nesse fragmento, Jung esclarece um ponto fundamental (e que justifica a impossibilidade de estabelecer um “método”), sua prática não visa  justificar uma teoria ou método mas, buscar o “fator eficaz” ou a “coisa verdadeira”. 

Poderíamos perguntar: Mas, “eficaz” em que? Primeiramente, devemos lembrar que a psicologia junguiana compreende que o sofrimento psíquico está relacionado a uma unilateralidade, isto é,  um direcionamento equivocado, excessivo da atitude da consciência que gera prejuízo ao individuo. Assim, quando se fala em “fator eficaz” Jung se refere ao fator que tenha como efeito uma renovação ou transformação da atitude da consciência. Mas, como encontrar esse fator eficaz? Jung afirma que 

“O que viso é produzir algo de eficaz, é um produzir um estado psíquico, em que meu paciente comece a fazer experiências com seu ser, um ser em que nada mais é definitivo nem irremediavelmente petrificado; é produzir um estado de fluidez, de transformação e de vir a ser.” (Jung, 1999, p. 43-4§99)

É interessante observarmos que o “fator eficaz” relaciona-se com o ”fazer” do paciente. Quando o paciente se permite fazer novas “experiências” com seu ser, ele se abre para o futuro, para as possibilidades de “transformação e vir a ser”. Essa possibilidade de abertura, está relacionado com os “deveres de casa” sugeridos pelos terapeutas junguianos aos pacientes.

A ”abertura a novas experiências” é sem dúvida um dos maiores desafios que encontramos no consultório, pois, muitas vezes, o paciente está tão fixado nas experiências passadas, que não percebe que a mudança em sua vida, que a melhoria seu estado psíquico, está na mudança de atitude e de ações realizadas no presente. Não se pode mudar o passado, mas, pode-se fazer um futuro muito melhor.

Devemos considerar que a busca pelo “fator eficaz”, não se aplica apenas ao paciente, mas, também ao terapeuta. De imediato, podemos identificar que  escolha de uma abordagem já é o indicativo que esta se apresenta para o terapeuta como um “fator eficaz”. Na psicologia junguiana a possibilidade de buscar este “eficaz” se faz perceber pluralidade de técnicas que se colocam disponíveis aos terapeutas junguianos.

Devemos notar que as técnicas  expressam profundamente o “fator eficaz” de cada terapeuta. Algumas se tornaram mais difundidas como a “analise de sonhos”, a “imaginação ativa”, o desenho e pintura – que são defendidos pelo próprio Jung como técnicas importantes para se dialogar com o inconsciente. De fato, quando lemos biografias de Jung, assim como o livro vermelho, podemos entender o quanto essas técnicas eram de fato “eficazes” pessoalmente para ele. 

Do mesmo modo, outras técnicas expressam o fator eficaz de cada terapeuta, como o sandplay (ou caixa de areia) que foi desenvolvido por Dora Kalff, a calatonia e técnicas corporais desenvolvidas por Petho Sándor, as várias possibilidades de oficinas terapêuticas desenvolvidas por Nise da Silveira. O  “fator eficaz” se revela quando nos permitimos a experiência, os autores, acima citados, deram nova forma a possibilidades que já haviam sido utilizadas ao longo da história humana – e ainda continuam eficazes.

No belíssimo trabalho “Jung & Sándor”, realizado por ex-alunas de Sándor,  encontramos que

Quando perguntado sobre como elaborou tais técnicas, o professor Sándor, sorrindo, dizia: “Isso é muito antigo, do patrimônio da humanidade.” Ele inspirou-se nos recursos e rituais usados pela humanidade para sua sobrevivência e evolução, adaptando-os ao momento atual. (HORTA et al.. 2012, p.16)

A psique de fato nos oferece uma infinidade de possibilidades “eficazes”, a questão é adapta-las ao momento atual. A afirmação de Sándor encontra eco na próxima menção ao fator eficaz realizada por Jung, que nos diz,

“De fato, a regra que sempre sigo é nunca ir além do significado contido no fator eficaz; esforço-me apenas para que o paciente tome, o quanto possível, consciência desse significado, a fim de que ele perceba que o mesmo também tem uma dimensão que ultrapassa o nível pessoal. ” (Jung, 1999, p. 43-4 §99)

Como o “fator eficaz” é um símbolo vivo, racionalizá-lo, fixar um exclusivo significado ou mesmo retira-lo da experiência emocional, significaria destrui-lo. A experiência do símbolo possui aponta tanto para a realidade individual quanto a coletiva. A dimensão coletiva é fundamental por enraizar o individuo nos mistérios da humanidade, na matriz criadora de símbolos, possibilitando a abertura e confiança para que o individuo possa enfrentar a si mesmo e ao mundo. 

No Grupo Aion, fizemos algumas considerações interessantes, pois,   acabamos por assumir uma postura “otimista”, contudo, em nenhum momento afirmamos que esse processo é rápido, fácil, simples ou indolor. Muito pelo contrario, pode ser longo, difícil, e dolorso. Mas, a cada passo dado, a segurança e autonomia geradas possibilitam o desenvolvimento posterior.

Obviamente, o percurso terapêutico de cada um é singular, devendo ser observado e respeitado o desenvolvimento de cada um. Em seu texto, Jung aponta que

“Enquanto o paciente necessitar a minha ajuda para descobrir os momentos eficazes dos seus sonhos, eu tiver que me esforçar-me por mostrar-lhe o sentido geral de seus símbolos, ele ainda não saiu do estado psíquico infantil.” (Jung, 1999, p. 44 §101)

Os recursos técnicos, a sugestão de atividades visam propiciar que o paciente saia desse estado de dependência, isto é, este estado infantil. Deve-se notar que nesse estado infantil a dependência não é apenas do terapeuta, pois,  muitas vezes, ele estabelece relações inconscientes de submissão com outros, a repetição desse padrão na transferência ocorre como uma tentativa de reparação ou superação desse problema no amadurecimento. Na transferência o inconsciente projeta no terapeuta a confiança (e com a ela a capacidade de mudança) que não foi possível integrar na consciência. Cabe ao terapeuta, possibilitar que esta confiança seja integrada pelo individuo.

Jung apontou como o caminho para o amadurecimento ou desenvolvimento psíquico a atividade criativa. Quando o paciente se permite fazer experiências consigo mesmo,  quer pela pintura, pela escrita, por suas ações, enfim,

Nessa fase, passa a ser ativo. Passa a representar coisas que antes só via passivamente e dessa maneira elas se transformam em um ato seu. Não se limita a falar do assunto. Também o executa (...) Sua atividade também vai liberta-lo progressivamente da dependência doentia: com isso, vai adquirindo firmeza interior e renovando sua autoconfiança. Estas ultimas conquistas, por sua vez, vão reverter em novos benefícios para a vida social do paciente. Pois uma pessoa interiormente segura e autoconfiante está mais bem preparada para suas funções sociais do que alguém que não está bem com o seu inconsciente. (JUNG, 1999, p. 46-8)

Na medida do possível é importante que o paciente possa aceitar e integrar a sua história. Isto é, aceitar que a fase que superou é um patrimônio seu. Por isso, a seriedade com a qual o terapeuta lida com a relidade psíquica do paciente é fundamental. Mesmo, a realidade patológica do paciente, pois,

“Aquilo que chamamos de “ilusão” é, talvez, uma realidade psíquica de suprema importância. A alma, provavelmente, não se importa com nossas categorias de realidade. Parece que para ela é real tudo o que antes de mais nada é eficaz. (...) No domínio psíquico, como na experiência geral,  realidade são fatores eficazes. Não importa quais os nomes que o homem lhes dê. O  importante é entender essas realidades como tais, dentro da medida do possível, não se trata em substituir um nome por outro.” (Jung, 1999, p. 43-4 §99)

A história de vida de cada um é sempre sagrada, ou seja, precisa ser profundamente respeitada, até mesmo em seus aspectos mais sofridos. Em certas situações a dificuldade do paciente em se permitir novas experiências se deve ao fato, de sua referencia ou realidade estar calcada num fator eficaz que deixou de ser funcional, mas, ao qual a consciência se apega obstinadamente. Compreender este fator eficaz, ou símbolo, é importante para auxiliar na passagem ou transformação de uma realidade para outra. Assim, não podemos rotular ou mesmo tentar enquadrar em teorias a realidade psíquica do individuo. O que podemos é auxilia-lo na busca das respostas, do “fator eficaz”, quando necessário mediando a relação dele com o próprio inconsciente.

Por conseguinte, os meus pacientes têm razão preferem as imagens e as interpretações simbólicas, como o  que há de mais adequado e eficaz.” (Jung, 1999, p. 43-4 §113)

Em última análise, sempre será o paciente que determinará o que é eficaz em seu processo. Muitas vezes, alguns aderem a racionalizações, teorias psicológicas que caíram no senso comum ou em diagnósticos como sendo sua realidade, no geral, isso gera apenas mais estagnação. As imagens e as interpretações simbólicas unificam o individuo, colocando-o  em contato com sua totalidade.

O texto “Os Objetivos da Psicoterapia” nos permite várias reflexões sobre a prática da psicoterapia.

 

Referencias bibliográficas

 

HORTA, Eliete Villela Pedroso; MINICUCI, Maria Cristina; PASCHOA,  Vera Lúcia Furtado; Jung & Sandor – Trabalho Corporal na Psicoterapia Analítica, São Paulo: Vetor Editora, 2012.

JUNG. C. G, A Prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

 

 

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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