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Texto - Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade

11 de Junho de 2017
Fabrício Fonseca Moraes

Notas:

1- Esse texto foi publicado inicialmente no site “Jung no Espirito Santo” em 10/08/2015. E revisado para publicação no CEPAES em 11/06/2017
2 -Esse texto pode ser visto como complementar ao texto 
Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

 

Esse texto surgiu de encontros no grupo Grupo Aion, onde discutindo os conceito de Anima e Animus a partir da leitura do texto “O Eu e o Inconsciente” do Jung. A discussão tocou em pontos importantes como o machismo presente na apresentação do conceito e acerca da atualidade dos conceitos de anima e animus. Gostaria de trazer um pouco dessa discussão. Comecemos por uma questão importante:

Jung era machista?

Sim, Jung era machista. Não quero justificar esse fato, minimizar ou polemizar com essa afirmação. Nosso objetivo é termos uma crítica histórica da psicologia analítica. Para termos essa visão mais clara, devemos considerar que Jung nasceu em 1875, como se não fosse suficiente viver numa sociedade conservadora como a suíça, era filho de pastor e tinha vários outros pastores na família. Assim, Jung era tão machista quanto a média das pessoas de sua sociedade. Apesar de termos cerca de pouco mais 200 anos de ações e discussões em prol de uma igualdade de gênero, no início do século XX, quando Jung escreveu o “O Eu e o Inconsciente” (a primeira versão foi de 1916 e a última revisão foi 1934) o movimento feminista ainda estava conseguindo suas primeiras vitórias em torno do direito do voto e das primeiras legislações em prol da igualdade de gênero.

Reconhecer o machismo de Jung é importante para não torná-lo um “machismo junguiano”. É fato que em muitos escritos de Jung transparecem o machismo e o patriarcalismo de sua época. Contudo, não devemos confundir isso com misoginia. Jung foi conhecido por ter em torno de si um grupo fiel e super capacitado seguidoras, mulheres geniais que conheceram e compreenderam sua psicologia de forma impar.

A presença dessas mulheres no cenário junguiano, levaram Maggy Anthony escrever o livro “As mulheres na vida de Jung” buscando resgatar um pouco da história e da importância dessas mulheres para o desenvolvimento da psicologia analítica. Elas foram interlocutoras de Jung, analistas, pesquisadoras, professoras e pioneiras fundamentais para o desenvolvimento junguiano. Mulheres como Toni Wolff, Marie-Louise von Franz,(que foi a mais importante das colaboradoras de JUNG), Jolande Jacobi (que foi uma as responsáveis pela abertura do Instituto C.G.Jung de Zurique), Mary Esther Harding, que foi uma pioneira junguiana no EUA, Olga Frobe-Kapteyn criadora das Conferências Eranos, Barbara Hannah, Emma Jung e muitas outras colaboraram com Jung e, de certa forma, possibilitaram toda a organização da psicologia analítica.

Imagens da Alteridade

A expressão mais evidente desse machismo no contexto junguiano são os conceitos de Anima e Animus. Não que os conceitos fossem deliberadamente criados na forja do machismo patriarcal, mas, Jung desenvolveu esses conceitos dentro de um contexto machista no qual ele mesmo estava imerso. Não quero dizer que o conceito seja machista, mas, que ele expressa um machismo cultural. Devemos lembrar que Jung partiu de sua experiência pessoal e clínica para codificar seus conceitos e, deste modo, por estarem todos (Jung e seus pacientes) imersos numa sociedade conservadora, machista e patriarcal cujas representações coletivas desse arquétipo se manifestavam de acordo nesse referencial cultural.

Para nos recordarmos do conceito de anima e animus, em seu processo de configuração, vejamos como Erich Neumann descreve esse processo de forma muito perspicaz.

Enquanto a disposição natural de todo indivíduo o inclina a uma bissexualidade física e psíquica, o desenvolvimento diferencial da nossa cultura força-o a deslocar o elemento contra-sexual para o inconsciente. como resultado, a consciência só aceita o tipo de caráter que a valoração coletiva considera correspondente às características sexuais externas. Assim é que as características “femininas” e “relativas à alma” são consideradas indesejáveis num garoto, pelo menos na nossa cultura. Tal acentuação unilateral da sexualidade específica de cada pessoa termina por constelar o elemento contra-sexual no inconsciente, na forma da anima, nos homens, e do animus, nas mulheres; a anima e o animus, sendo figuras parciais que permanecem inconscientes, dominam a relação do inconsciente com a consciência. Esse processo é apoiado pelo coletivo e, como a repressão do lado contra-sexual é frequentemente difícil, a diferenciação sexual é de início acompanhadas pelos modos típicos de antipatia com relação ao sexo oposto. Também esse desenvolvimento obedece ao princípio geral da diferenciação, que pressupõe o sacrifício da totalidade, aqui representada pela figura do hermafrodita.(NEUMANN, 1995, p.386)

Acredito ser fundamental observar nesse texto, a influência da consciência coletiva, ou dos valores culturais, na formação da Anima e Animus – definindo sua forma de manifestação. Essa concepção considera a cultura de forma homogênea e com os papéis de feminino ou do masculino altamente diferenciados e disponíveis a consciência. Nesse contexto, a anima foi associada a afetividade e atributos do feminino e o animus associado ao princípio do Logos, da razão e masculinidade. Gerando uma dicotomia que poderia ser expressa dizendo que na consciência do homem estariam plenamente desenvolvidos e adaptados os valores coletivos da masculinidade, assim como na mulher todos os valores do feminino estariam plenamente desenvolvidos e adaptados. O fato é que na prática isso não se comprova. Essa concepção deriva de uma cultura machista e sexista. Segundo Samuels,

É importante levar em consideração o que sabemos da experiência clínica: imagens relativas à masculinidade, que estavam inconscientes, são frequentes no material analítico dos homens. Do mesmo modo, a feminilidade não é uma questão puramente consciente para a própria mulher, como Jung o afirma. Jung, aqui, foi vítima de sua própria posição de oposicionismo; nesse caso, entre consciência e inconsciência. Mulheres e homens têm, respectivamente, uma feminilidade e uma masculinidade inconscientes. (Samuels, 1989, p. 255)

Falamos que a percepção do machismo que atravessa a concepção da anima e animus, contudo, não invalida o conceito, mas exige uma reflexão mais profunda e uma adequação a contemporaneidade, ou seja, às transformações ocorridas em nossa sociedade. Por exemplo, devemos considerar as mulheres responsáveis por suas famílias, que segundo analises do senso demográfico de 2010, correspondiam a 37,30 % das famílias nucleares brasileiras (IBGE, 2014), esse número se eleva para 87,40% das famílias monoparentais. Poderíamos citar também o movimento LGBTIA que vem ganhando o devido espaço em nossa cultura. Nós temos um cenário muito diferente daquele que Jung conheceu, apesar de muitas dessas mudanças terem início nos dias de Jung – vide suas colaboradoras.

Compreender essa necessidade de contextualização implica em tornar mais claras as diferenças entre representação coletiva da anima/animus e sua função psíquica. Para muitos pode parecer óbvia essa distinção, contudo, tenho venho observando que esta distinção não é clara tão assim. Quando consideramos a representação coletiva a descrição clássica compreende que a anima se manifesta no homem como uma figura feminina numinosa, na mulher o animus de manifestaria numa pluralidade de imagens masculinas. Bem, por serem imagens opostas a identidade de gênero do Ego, complementando esta última, foi considerada uma “função contrassexual”, Samuels (1986) nos chama atenção que a contrassexualidade diz respeito apenas caráter de alteridade – isto é, o inconsciente como um Outro e não a especificidade de gênero em si.

A forma como um arquétipo se constela depende da cultura onde o indivíduo se encontra. A forma de manifestação descrita por Jung é própria de uma sociedade machista e patriarcal. Nos chama atenção que ao longo de nossa história ocidental, as relações do homem com o feminino seguiam de modo mais ou menos linear, num primeiro momento da figura de feminina a mãe, posteriormente, a professora, em outro nível, na adolescência a mulher que lhe despertasse o fascínio e o desejo sexual, ou então, a musa inspiradora ou a “mulher amada” exercia influência sobre o homem, mas, de forma privada. No caso da mulher, as relações históricas com o masculino passavam fundamentalmente pela submissão ao pai, irmãos, tios e todos os demais homens. Acredito que esses aspectos devem ser levados em consideração para não identificarmos o momento cultural de representação do arquétipo com o elemento funcional do arquétipo em si.

Numa conversa com a analista Mary Esther Harding, Jung afirmou “ um homem deve adotar uma atitude feminina, enquanto uma mulher deve combater seu animus, uma atitude masculina (…)”  (McGuire, Hull, 1984, p. 42). Me parece que a fala de Jung como uma compensação interna necessária a realidade da cultura. O homem deveria acolher o feminino que era/é coletivamente desvalorizado e por outro lado, a mulher deve combater essa configuração do masculino que lhe é imposta culturalmente, de modo a valorizar o feminino.  Jung observou que haveria uma tendência natural a integrar e equilibrar os princípios de masculino e feminino que compõem a experiência humana, reforçando a ideia da sizígia (a união do masculino e feminino) como expressão do Self que deveria ser valorizada.

Por mais que Jung tivesse uma intuição capaz de perceber que o psiquismo visa a sizígia, isto é, essa integração equilibrada do masculino e feminino, o machismo patriarcal da cultura ainda falava alto demais, a tal ponto, que não lhe era possível vislumbrar outros movimentos coletivos. É certo temos configurações de anima e animus similares aos dias de Jung, pois, vivemos numa sociedade ainda machista e patriarcal, mas, não podemos desconsiderar novas possibilidades constelações frente as mudanças que estamos vivemos nos últimos 40 anos.

Dessa forma, prefiro adotar a terminologia da alteridade para falar da anima e animus, pois, em seu aspecto fundamental, o inconsciente se personificaria como um Outro (SAMUELS, 1989), totalmente distinto e numinoso. Esta personificação que possibilitaria que, de forma objetiva, houvesse um meio de relação do Ego com as imagens interiores da psique coletiva.  Assim, a função deste arquétipo é possibilitar a relação com o inconsciente de forma mais adequada – que se refletiria também numa relação com a realidade exterior também adequada. É importante ressaltar que para Jung a Anima/us possuem uma função similar e oposta a da persona. Esta última, tem a função de possibilitar uma adaptação mais adequada ao mundo exterior, já a anima/us teriam a função de viabilizar o contato mais adequado com o mundo interior.

Integrando a Anima e Animus

Como um arquétipo em si permanece teoricamente invariável, apenas sua representação se transformaria de acordo com cultura, uma das possibilidades seria considerar o arquétipo em sua totalidade, isto é, tomando como ponto de partida a sizígia.

As mudanças culturais contemporâneas se concentram sobre gênero, sexo e casamento. Há uma nova atmosfera, e talvez as lutas sociais e políticas das mulheres contribuam para isso. Penso que podemos adaptar a idéia de que o animus e a anima existem, igualmente para homens e mulheres, e dizer que vivemos num mundo da anima, num mundo animado. (SAMUELS, 1989, p.270)

Considerar a possibilidade da anima e do animus serem constelados tanto em homens e quanto mulheres podemos acolher de forma mais ampla a autonomia do inconsciente, compreendendo que numa sociedade cada vez mais diversa o inconsciente pode ser manifestar de formas diferentes. Essa possibilidade implica também em considerar uma amplitude de papéis do ego, não mais identificado unicamente ou com o masculino ou com o feminino. Ou seja, esta mudança não diz respeito apenas ao inconsciente, mas, uma mudança no ego, pois, falamos de um processo consciente de integração masculino e feminino, isso não significa uma perda, mas, uma compreensão mais ampla da consciência.

Em essência, o caminho para o homem andrógino não tradicional, que pode aceitar qualidades tradicionalmente femininas, não passa por uma diminuição de sua masculinidade, mas por uma segura autoconfiança naquele papel que lhe permite também sentir-se bem com as qualidades tradicionalmente associadas ao sexo feminino.(STEINBERG, 1992, p108)

Essa ampliação exige do terapeuta uma atenção maior, pois, uma vez que a alteridade pode se manifestar em suas imagens de anima e animus tanto no homem quanto a mulher, devemos ter atenção pois, o mesmo passa a valer em relação a representação da sombra – esta costumeiramente é associada a uma imagem do mesmo gênero do sujeito-  nesse contexto, a sombra também pode ser do gênero oposto, podemos perceber com mais clareza em pessoas que adotam posturas misóginas ou misândricas. O mais importante é perceber a função desempenhada pela imagem, seja de antagonismo ou de alteridade.

 Acredito que ser não só razoável como necessária essa compreensão que integra a anima e animus tanto na dinâmica do homem quanto na mulher, pois,  a partir dessa ampliação podemos compreender desde o viés junguiano que o “gênero” se refere a “identidade de gênero do ego” e não apenas ao “sexo biológico” ou aos determinantes culturais e que o potencial arquetípico do masculino e feminino atuam tanto no homem quanto na mulher – independente do gênero com o qual o ego se identifica.

É um desafio constante é compreender e praticar a psicologia analítica à luz da contemporaneidade, atualizando mas sem perder a essência de trabalho de Jung.

Referências Bibliográficas

IBGE, Estatísticas de gênero : uma análise dos resultados do censo demográfico 2010,  Disponivel em http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/index.html?loc=0&cat=-15,-16,-17,-18,128&ind=4704 , acessado em 25/07/2015

JUNG, C.G, O Livro Vermelho, Petropolis: Vozes, 2013.

________. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 15ed. 2001

JUNG, E. Animas e Animus, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005

NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.

SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.
STEINBERG,W. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, São Paulo: Cultrix, 1992.

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

 

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Abraços

 

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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