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Texto - Kiriku e a Feiticeira – alguns comentários junguianos

07 de Novembro de 2017
Fabrício Fonseca Moraes

Nota: Texto postado originalmente no site Jung no Espirito Santo, em 07/05/2015

 

Há poucos dias um colega, Douglas Jakob,  postou no grupo “Psicologia Junguiana no ES” do facebook uma sugestão, pedindo um comentário sobre o filme “Kiriku e a Feiticeira”. Confesso que eu já havia visto o link do vídeo em outros grupos mas, não tinha me interessado, contudo, frente ao post de nosso colega me prontifiquei.... e me surpreendi. A riqueza da história e a forma como a lenda foi trabalhada o respeito a cultura africana foi algo sensacional.

 O Filme “Kiriku e a Feiticeira” foi lançado em 1998, sendo uma produção franco-belga, seu diretor Michel Ocelot passou parte de sua infância em Guiné, onde aprendeu sobre a lenda de Kiriku.  Como comentaremos sobre o filme é impossível não fazer spoilers! Então, convido ao leitor a assistir ao filme primeiro e, depois ler nosso texto. Deixo claro, que meu objetivo não é exaurir as possibilidades do filme, nem rotular, mas, antes ampliar e apontar pontos relevantes.

https://www.youtube.com/watch?v=n4JYa-e3rPI

 

Um nascimento milagroso

O nascimento de Kiriku foi um prodígio, desde o ventre de sua mãe, o pequeno Kiriku disse a mãe que queria nascer, ao que a mãe responde “ uma criança que fala na barriga de sua mãe pode nascer sozinha” e assim, sem dor Kiriku nasce, corta seu cordão umbilical, e declara a própria mãe que se chama Kiriku e pede a mãe para ser lavado, ao que mãe responde “uma criança que nasce sozinha, se lava sozinha” e Kiriku se lava e ao se lavar toma conhecimento do drama que a tribo sofre devido a feiticeira Karabá.

O nascimento milagroso é uma marca é o prenúncio de grandes feitos. Encontramos paralelos no nascimento de Buddha Gautama, que segundo algumas tradições, Buddha nasceu sem que sua mãe sofresse as dores do parto, logo após o nascimento ele deu sete passos na direção dos quarto pontos cardeais e disse que aquele era seu último nascimento. O mesmo ocorre em nascimentos como de Dionísio, que retirado do útero de Sêmele foi enxertado na coxa de Zeus.  O mesmo ocorre nos nascimentos virginais de Jesus e Krishna.

No caso de Kiriku temos um aspecto importante, ele era uma criança, nascida antes da hora, mas, que dialoga com a mãe – esta, apresenta a missão de Kiriku falando sobre as dificuldades passadas pela aldeia e devido o poder de Karabá. Assim, devemos considerar que Kiriku, o herói-criança, está intrinsecamente relacionado com a mãe, não apenas a mãe-genitora, mas, a mãe terra que sofre com a seca.

Na primeira cena, são contrapostos dois femininos importantes a Mãe de Kiriku e Karabá, a feiticeira devoradora. Os homens haviam sido “devorados” por Karabá.  Por isso, Kiriku sendo recém-nascido é fundamental – ele ainda está associado ao mundo do feminino materno, da terra, ctônico(das profundezas), nele o feminino e o masculino estão em equilíbrio. 

 

Primeiras façanhas

A primeira façanha de Kiriku foi salvar o tio, diante da feiticeira Karabá, ele se escondeu no chapéu, e, este foi pensado como um objeto mágico. Que foi trocado com Karabá. Por não ser mágico, Karabá exigi o ouro das mulheres.  A segunda foi, mesmo sendo rejeitado, ter salvado as crianças por duas vezes – da canoa e da árvore. O terceiro feito ocorre pouco antes das mulheres censurarem a mãe de Kiriku pelas suas ações, posterioremente, foi até a fonte e entrou na mesma e encontrou o animal que drenava toda a água, restituindo a água da aldeia, para tanto ele quase que morre afogado – ele é levado ao seio da mãe e da aldeia que finalmente o aceita.

Nas três primeiras façanhas temos um dado interessante: a rejeição a Kiriku, (todos o rejeitam). E, mesmo assim, ele salva a todos. A cada etapa ou cada façanha, seu valor era reconhecido. Podemos pensar esse processo de reconhecimento ou integração: tio (família), as crianças (os iguais) e a fonte (a aldeia). Com essas três façanhas Kiriku se torna um legitimo como um herói/guerreiro da tribo e resgata a alegria (expressado pelas danças) e a esperança (a água) da aldeia.  A alegria e a esperança incomodam ainda mais a Karabá.

 

A Jornada de Kiriku

 


Após descansar de seu quase afogamento, Kiriku retoma suas indagações sobre o motivo da maldade de Karabá. Sua mãe lhe diz que somente seu avô, o sábio da montanha, saberia. Mas, que ele viveria para além das terras de Karabá, Com a ajuda da mãe, Kiriku inicia sua jornada pelo mundo interior, pelas profundezas da terra onde ele se encontra com desafios,posteriormente, doma um javali para chegar até o cupinzeiro, que se ele fosse digno o cupinzeiro se abriria para ele, a entrada da morada sábio da montanha, seu avô..

Com a ajuda da mãe Kiriku inicia sua jornada pelo mundo subterrâneo, onde, pelo seu tamanho se sente a vontade, ele encontra com animais, se vê em meio a um labirinto de possibilidades. Podemos pensar nesse enfrentamento dos animais o gambá, os esquilos, o pássaro e o javali como um enfrentamento da própria natureza instintiva. Com sua ingenuidade, Kiriku conquista todos animais, o que o torna digno de entrar no cupinzeiro. Onde encontra com seu avô, que logo o reconhece. Deve-se notar que o avô, o sábio, se coloca para além do problema, para além das terras da feiticeira. Ele traz a ancestralidade, o conhecimento antigo e, sem julgamentos, compartilha com Kiriku.

Segue o dialogo entre o Avô e Kiriku, onde ele revela que o que era atribuído a Karabá não tinha sido obra dela, mas, o medo das pessoas que deu a fama a Karabá O Sábio revela que Karabá era má porque sofria dia e noite, pois, havia sido violentada por homens que colocaram o espinho em sua coluna, esse espinho dava poderes a ela. Kiriku afirmar retiraria o espinho das costas de Karabá, Kiriku pede para se aconchegar no colo do avô, fala de sua solidão, ao que o avô responde que estaria sempre com ele.

A revelação acerca da maldade de Karabá é na minha opinião o ponto mais importante do filme. Karabá inflige o sofrimento porque também sofre. Libertar a aldeia do mal e sofrimento de Karabá, significa libertar Karabá. Diferente de nossa lógica ocidental maniqueísta, a narrativa não fala de uma “vitória” do bem sobre o mal. Mas, fala de equilíbrio, trazer paz a Karabá é trazer paz a todos. Não  é uma lógica de opressão.

Devemos notar também que há um ponto importante: Karabá fala do feminino ferido. Ela foi violentada por homens que imprimiram espinho magico em sua coluna. Seu poder torna os homens em objetos, tira a naturalidade de suas vidas, mesmo assim, ela é mulher, bela e vaidosa(vide as joias que usa e exige das demais), mas, em seu sofrimento é solitária, não tem uma amiga que ajude.

Nesse ponto, Kiriku é igual a Karabá, ambos são solitários. Kiriku é uma criança – ou seja, nem homem nem mulher – que luta sozinho, por isso, se coloca fora desse poder “devorador do masculino”.  

Kiriku cria uma estratégia para retirar o espinho de Karabá, ele rouba as joias dela, enterra e enquanto Karabá se abaixa para cavar, ele ataca e retira o espinho. A natureza volta a florescer. Karabá e Kiriku conversam e ele se torna um adulto, com um beijo de Karabá.

Kiriku rouba as joias, isto é, o símbolo da feminilidade de Karabá. E, através disso ele consegue expor a ferida ou o espinho para assim retira-lo. Com a retira do espinho, ela volta a ser mulher, deixa de ser feiticeira, a terra retoma sua fertilidade. Kiriku pede para que Karabá se case com ela, ela rebate dizendo que ele era uma criança e que mesmo que não fosse ela não seria empregada de ninguém, não se submeteria, como na verdade foi submetida a força no passado. É importante pensarmos como o feminino ferido, se constela em sua forma sombria (a feiticeira) mediante a violência do masculino. O abuso contra o feminino é um abuso contra toda a natureza. Como dissemos antes, Kiriku não era homem, nem mulher, era uma criança, ainda intimamente ligado ao feminino materno. Quando Karabá o beija, Kiriku deixa de ser criança, se torna um homem, mas, não perde a sua essência feminina que é capaz de curar as feridas de Karaba.  

O Retorno de Kiriku e Karabá

Karabá prepara roupas para Kiribu, ao retornarem a aldeia, as pessoas fogem com medo. Ninguem reconhece Kiriku, até ele convocar sua a mãe que o reconheça. Ela o reconhece, mas, a aldeia se põe contra karabá pelos males causados. O sábio da montanha retorna, junto com todos os homens, e revela que não havia culpa em karabá pelos males e que kiriku  a libertara, todos reencontra homens e mulheres.

O retorno fala do processo de reintegração de kiriku e karaká a vida da aldeia. Devemos notar que a aldeia ainda estava marcada pelo feminino ferido de Karabá, a chegada do casal Kiriku-karaba, ambos transformados precede a transformação da aldeia. Chama muito a atenção a postura de Kiriku, que estando adulto, forte, não se impõe pela força a, antes dialogou e convocou sua mãe para reconhece-lo, uma reverência ao feminino materno – uma confirmação do respeito que ele prometeu a Karabá. Mesmo assim, a aldeia na ainda enganada, sofrendo pelo mal que atribuíam a Karabá, não os aceitam e ameaçam a ambos. Somente, quando o sábio a montanha, retorna com os homens e fala que não havia nenhuma culpa em Karabá que todo podem festejar juntos. É fantástico pensar que somente como o resgate do feminino expressado em Karabá, a aldeia pode recuperar sua masculinidade, isto é, os homens.

Algumas considerações finais

Ao longo do texto tentei evitar de usar conceitos para não ser (ainda mais) reducionista. Acredito que essa narrativa fala da individuação em diferentes níveis, seja ele como um confronto tanto com a sombra quanto com a anima ou como um processo de integração.

Kiriku como um herói-criança é um portador de uma nova consciência, de um processo de transformação, não pautado na força, mas, na compreensão. Ao se dispor a “libertar” Karabá de seu sofrimento, de sua solidão e isolamento, Kiriku liberta a todos. Pois, o sofrimento de um é o sofrimento de todos.

Na narrativa é podemos perceber que todos são vítimas em certo ponto, mas, todos também são agressores em outros, todos são parte do problema, mas, também são parte da solução. Não há uma divisão do “bom ou mal” Compreender, aceitar as diferenças (seja de tamanho, idade e gênero) é necessário para integrar e fazer de volta a vida a terra. 

Mas, confesso que a força do feminino no filme foi o que mais me tocou. O Feminino nas mulheres da aldeia, a grandeza do feminino materno da mãe de Kiriku, a altivez do feminino ferido de Karabá, a inocência do feminino em Kiriku e o feminino no Sábio da Montanha. Estamos tão acostumados com um masculino fálico, solar e conquistador que chega ser difícil compreendermos essa dinâmica do feminino num herói. Jung chamou de Anima dimensão feminina da psique que o homem precisa integrar – essa integração, permite ao homem viver tanto sua masculinidade quanto sua feminilidade de forma saudável, como dizia Pepeu Gomes “ser um homem feminino, não fere meu lado masculino”. E, de fato, vejo na minha prática clínica é necessário ser um homem materno para acolher e cuidar do feminino ferido tanto em mulheres quanto homens.

Obviamente, essas são considerações que me tocaram, muitas outras são possíveis dada a riqueza apresentada no filme.

 

 

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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