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Texto - NUMINOSO: Do sagrado de Otto ao Arquétipo de Jung

02 de Julho de 2017
Fabrício Fonseca Moraes

Notas:

1-  Este texto foi publicado em 13 de abril de 2010 no blog “Jung no Espirito Santo”.

2- Este texto foi produzido para a apresentação oral realizada no  I Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, Dezembro 2009.

3 – Esse texto foi revisado e modificado para publicação no CEPAES em 02/07/2017

 

Este texto surgiu por ocasião do Primeiro congresso Estadual de Psicologia Analítica, na UFES em 2009, marcando a psicologia junguiana capixaba. Organizado pelo Programa Portas – que foi uma importante referência da psicologia junguiana de 1995 à 2016 – e ao Programa de Educação Tutorial (PET) da psicologia da UFES.

A nossa proposta para é pensarmos um pouco sobre o conceito “numinoso”, que é encontrado com frequência na obra de Jung como uma qualidade ou caráter do inerente ao arquétipo. Mas, para compreender a adoção deste conceito, é necessário buscarmos a sua origem, o que nos leva a Rudolf Otto, que foi contemporâneo de Jung, e um dos idealizadores das conferências Eranos. 

Rudolf Otto, o Sagrado e o Numinoso

Apesar de sua importância, Rudolf Otto(1869-1937) não é muito conhecido em nosso meio da psicologia. Nascido na Alemanha, Otto foi um destacado teólogo protestante, filósofo e historiador das religiões. Esses três títulos de “teólogo”, “filósofo” e “historiador” correspondem também aos três estágios de desenvolvimento de sua obra, cuja primeira fase[i] correspondeu a seus estudos direcionados a teologia cristã, sua segunda fase marcada pela obra “O sagrado”, onde ele discutiu questões relacionadas a filosofia, mais propriamente fenomenologia da religião e Psicologia da religião. A terceira fase de sua obra, foi dedicada a estudos comparativos de história das religiões, especialmente as religiões orientais.

Um dado fundamental sobre Rudolf Otto é que ele, assim como Jung, não foi um pensador de gabinete, sua “inspiração”(por assim dizer) vinha das viagens que realizou ao longo de sua vida – como, por exemplo,  a Grécia, ao norte da Europa (Finlândia, Russia, Suécia), Oriente Médio (Beirute, Jerusalem), Norte da Africa(Egito), Oriente (India, China, Japão, Ceilão), America (EUA). A experiência com diferentes culturas, com formas de perceber a religião, fez de Otto um pensador ímpar. Seu trabalho influenciou pensadores importantes como Mircea Eliade e Paul Tillich, assim como C.G.Jung.

A obra que deu destaque a Rudolf Otto foi “O Sagrado – Os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional” e foi publicada em 1917, durante a primeira guerra mundial. Nesse trabalho, Otto defendeu que o sagrado seria o elemento essencial das religiões, este seria o elemento relacionado ao divino, não sendo passível de racionalização. Otto compreendia que o Sagrado era uma ideia ou noção complexa, sendo formado por dois aspectos opostos:

1 – O primeiro era o elemento “racional”. Por racional, Otto compreendia os elementos que são nomeados, ou conceituados. Ou de outra forma, seriam os elementos passíveis de serem claramente comunicados pela linguagem. Nessa categoria de racional estariam as narrativas, as doutrinas, a ética e a moral religiosa.

2 – O segundo aspecto é o que nos importa nesse momento, corresponde ao âmbito irracional do sagrado. E o irracional seriam corresponderiam os elementos que não se dobram ao a linguagem, fugindo a uma apreensão conceitual. Esse aspecto ou categoria Otto chamou de “numinoso”. Esse termo tem sua origem no termo latino Numen significa deus ou divino. O Numinoso corresponderia ao aspecto ativo, experiencial da vivência religiosa e, assim,  só falaríamos em numinoso quando o em sua manifesta, ou seja, quando o individuo está diante do numinoso. Otto propõe que única forma de se compreender o irracional no sagrado é tendo uma experiência pessoal com o sagrado e, Isso é tão importante, que no terceiro capitulo de seu livro, Otto sugere que quem não tiver tido uma experiência religiosa ou não for capaz de se recordar de uma experiência deste tipo, que não continuasse a ler o livro. O que se diz acerca do numinoso, só faz sentido por encontrar eco na experiência vivida.

Desse modo, para se aproximar do aspecto irracional do Sagrado, Otto tomou como referência as reações afetivas e sensoriais dos indivíduos frente ao numinoso, ou seja, as sensações provocadas pelo sagrado nos individuos. (Isso é um dado interessante, pois, ao optar em discutir o numinoso a partir das reações afetivas fez psicologia da religião.)

O numinoso, entretanto, não se manifesta de uma forma simples, mas, complexa, Otto propôs uma formula básica para expressar essa complexidade, segundo Otto o numinoso é o mysterium tremendum et fascinans (mistério terrível e fascinante).

mysterium corresponde a forma como o numinoso se manifesta. É o mistério, o desconhecido, incompreensível. Que quando manifesto se faz perceber como algo distinto da realidade que experimentamos, é o totalmente Outro.

Apesar de ser um mistério, ao se manifestar o numinoso é perceptível, Otto dizia que o sagrado se faz perceber pelo “arrepiar dos pêlos”, pelo “tremor dos joelhos”. Esse mistério  nos causa arrepios, se apresentando em dois aspectos qualitativos: o Tremendum e oFascinans.

Tremendum é o aspecto negativo ou repulsivo do sagrado, onde a manifestação nos impele para trás, que nos impõem o temor. Ele pode ser percebido sob três formas: Tremendummajestas e orgé.

Tremendum é o terrível no sagrado; é o que nos faz tremer, que causa calafrios, que nos traz a sensação de risco a nossa integridade. Em nossa cultura cristã, podemos observar esse aspecto relacionado ou ao que seria demoníaco ou relacionado ao demônio ou em experiências místicas. No antigo testamento, Deus impunha temor, era o Deus que castigava, punia até a “segunda e terceira geração”. Nos dias de hoje percebemos esse “temor” na crença ou no Diabo como opositor, ou no castigo divino sentir o “peso da mão de Deus”.

Majestas está relacionado com o poder ou a majestade com qual a experiência se apresenta. Nesse aspecto o misterium nos coloca na posição de pequenez, impotência, finitude, é o desesperador sentimento de finitude frente ao infinto produzindo o sentimento de criatura diante da grandiosidade deste Outro.

O terceiro aspecto é o Orgê que é a energia do numinoso. Que se faz manifestar na “vivacidade, paixão, natureza emotiva, vontade, força, comoção[ii]” gerados no individuo pelo contato com o objeto numinoso.

Esses aspectos são percebidos como repulsivos pois geraram o terror, o medo. E são percebidos como algo exterior a nós mesmos, algo que nos atinge.

Fascinans é o aspecto positivo ou atrativo do sagrado, que é formado por dois aspectos, o augustus que impacta o indivíduo com a sensação de pureza, santidade; e o sebastus que se manifesta impondo prudência, reverência, veneração.

A sensibilidade de Otto ao descrever o Numinoso possibilitou não só uma compreensão teórica do Sagrado ou da experiência religiosa, mas, também a possibilidade de compreendermos a experiência religiosa pela psicologia. O Numinoso não é uma noção teológica ou metafísica, mas, uma noção pautada na descrição da experiência do sagrado, a compreensão do numinoso como o aspecto irracional do sagrado que invade e toma o individuo, permitiu que Jung pudesse também aproximar a noção de numinoso da noção de arquétipo e de inconsciente.

O Arquétipo de C.G. Jung

Acredito que Jung dispensa apresentações. Mas a complexidade do conceito de arquétipo nos impõe uma constante reflexão sobre o mesmo.

Em primeiro lugar, é importante pensarmos no arquétipo num sentido amplo, não apenas como um conceito em si. Podemos pensar o arquétipo como uma categoria a priori necessária para pensarmos e compreendermos os fenômenos psíquicos, que fogem ao âmbito histórico tanto do indivíduo quanto do grupo no qual o indivíduo está inserido. E que podem reconhecidos nas diversas culturas, seja comportamentos ou por narrativas míticas.

Assim, quando falamos em arquétipo estamos nos referimos a uma categoria de padrões basais de organização e orientação psíquica comuns a todos os seres humanos, pois sua origem e desenvolvimento remontam a história evolutiva humana.

Como padrões basais de organização, os arquétipos são a base da estruturação  da consciência. E por isso que Jung afirma que o arquetipo-em-si não atinge a consciência. Pois, isso comprometeria a organização do ego e da consciência.

Deste modo, o arquétipo é estranho a consciência, nós somente apreendemos suas representações . Eu prefiro usar o termo representação arquetípica no lugar de imagem arquetípica. Isso porque imagem no uso comum tem um apelo visual, gerando um pouco de confusão.

Os arquétipos podem se manifestar ou se representar em nossa realidade como:

1 – Complexos de Tonalidade Afetiva: Os complexos são centros ordenadores de nossa experiência pessoal. Os complexos são atualização dos arquétipos em nossa realidade pessoal, pois, é em torno da tendência arquetípica que vão se organizar os complexos. Por isso, que podemos compreender a dinâmica de um complexo a partir os aspectos arquetípicos – como as representações culturais – mitos e contos de fada.

2 – Representações Simbólicas Culturais: São as manifestações arquetípicas na consciência coletiva. Que podemos perceber nas narrativas mítico-religiosas e na iconografia religiosa, cuja estrutura é similar nas mais diferentes culturas.

3 – Representações Simbólicas pessoais – Os símbolos correspondem a atualização do arquétipo através da projeção em situações ou imagens que correspondem arquétipo. Os símbolos podem ser ícones (como a cruz, um santo) ou situações típicas que marcam a vida – como o “sair da casa dos pais”, um “rompimento ou uma perda afetiva”. São situações que imprimem um significado maior aos indivíduos.

4 – Representações Corporais: Os arquétipos se expressam no corpo, através sentimentos, emoções, posturas que assumimos inconscientemente e que condicionam nosso modo ser, e perceber a vida. Essas representações corporais que são tão bem descritas pela psicologia corporal – em especial a analise bioenergética.

Essas formas de representação arquetípica demonstram a amplitude da idéia de arquétipo, que vai desde o aspecto cultural ao físico.

O que não podemos perder de vista, que quando o arquétipo se constela ou se manifesta, ele traz uma energia característica à consciência, fazendo com que o ego seja atraído e se submeta (mesmo que temporariamente) a dinâmica arquetípica. Ou melhor, ele passa a ser orientado pelo arquétipo.

Os arquétipos constituem o pano de fundo de nossa realidade. E, na maioria das vezes não nos apercebemos disso, pois, não nos damos conta de que cada representação arquetípica citada é um nível manifestação do arquétipo, e que é geralmente inconsciente.

Arquétipo e o Numinoso

A relação entre o arquétipo e o numinoso, fica clara quando a representação arquetípica se constela na consciência. Quando o arquétipo se constela, o ego experimenta essa manifestação ou com um caráter compulsivo, que pode ser experimentado como um fenômeno restaurador – ou seja, que vai fortalecer o ego, mas, limitar a liberdade do ego – ou como algo ameaçador que colocaria o ego em xeque, provocando uma profunda desestabilização do ego (chegando até uma possível ruptura psicótica).

Por exemplo, a experiência arquetípica é restauradora quando ela emerge no meio de uma crise, dando um norte para o ego. Isso é muito comum nas conversões religiosas, onde, com indivíduo num momento de crise, eclode um símbolo cuja intensidade e a força de atração é tão forte, que o ego se ordena em função disso. Nesse mesmo nível, podemos pensar nas constelações onde um indivíduo se separa, larga toda sua vida para viver uma paixão que todos vêem como absurda, ou mesmo se converte a uma religião e assume uma atitude fanática. O ego fica fascinado pelo arquétipo. Nesse caso o ego supera a crise, mas, paga o preço perdendo de sua autonomia, ficando identificado pela imagem arquetípica .

No outro caso, o arquétipo ou a representação arquetípica se coloca como uma ameaça iminente seja pela projeção da sombra, pela paranóia e estc.., No transtorno obsessivo compulsivo, p.ex., onde o individuo tem pensamentos dos quais tem que se defender, ou pela síndrome do pânico onde há a sensação de morte iminente, que é a própria ansiedade de ruptura do ego.

Em sua possibilidade de manifestação, o arquétipo pode ser terrível e fascinante. Por isso Jung afirma que o arquétipo é numinoso ou que o arquétipo possui “numinosidade”, pois os a constelação arquetípica observada no consultório apresentava as mesmas características que Otto descrevera da experiência do Sagrado.

Devemos tomar cuidado, para não fazermos reduções, dizendo “Sagrado é Arquétipo”, nem que o “Arquétipo é Sagrado”, não estou falando nada disso, apenas que são duas categorias que nos afetam de forma similar.

Outro aspecto que aproxima o pensamento de Otto e do Jung é a questão de irracional. Tanto o sagrado quando o arquétipo são ideais ou conceitos, que não se aprende racionalmente, é necessário viver a experiência do sagrado ou do arquétipo para compreendê-las. Por exemplo, quem não sentiu o poder sedutor da anima, vai ter dificuldade para compreender a angústia de um cliente fascinado pela anima. Quem não se confrontou com o Mal em si próprio, vai ter dificuldade para compreender o Mal ou a Sombra, no cliente. Por isso que para se compreender a psicologia analítica, é necessário viver os conceitos.

O Numinoso na psicologia analítica aponta justamente para isto:  o mistério terrível e fascinante que nos organiza e nos constitui. Que nos confronta com quem somos, e assim, nos conduz a nós mesmos.

OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção de divino e sua relação com o racional, São Leopoldo:Sinodal/EST; Petropolis: Vozes, 2007.

 

 


[i] Cf. O sagrado, p. 15.

[ii] Cf. O Sagrado, p. 55

 

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Abraços

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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