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Texto - Supervisão Clínica na Abordagem Junguiana

29 de Setembro de 2018
Fabrício Fonseca Moraes

Fabrício Fonseca Moraes

Kelly Guimarães Tristão

 

A regra fundamental do psicoterapeuta

é considerar cada caso como novo e único.

(Jung, 2000, p. 159)

(Nota: Este é um artigo preparado para embasar a supervisão clínica na formação em Psicoterapia Junguiana do CEPAES, assim como do Grupo de Supervisão)

Historicamente as abordagens do inconsciente possuem uma percepção muito aproximada acerca do processo de formação de psicoterapeutas/analistas, percepção esta que remonta ao início do movimento psicanalítico com Freud e, por ser independente da teoria propriamente dita, essas percepções se mantiveram e podem ser descritas no esquema abaixo:

Esses três elementos – análise pessoal, estudo teórico e a supervisão - também são chamados de “tripé da formação”. Geralmente, a formação começa ou pela análise pessoal ou pelo estudo teórico, especialmente na graduação. A supervisão costuma vir quase sempre como uma terceira etapa, o momento onde o profissional busca segurança e validação para o exercício da clínica.

O chamado “tripé da formação” é uma construção fundamentalmente alicerçada num dado paradigma da psicanálise freudiana. Devemos nos questionar: essa perspectiva contempla plenamente a concepção junguiana? Sem sombra de dúvidas, os três elementos do “tripé” são fundamentais para a formação do psicoterapeuta/analista, contudo, há um quarto elemento que devemos considerar no processo de formação: a prática clínica.

Na maioria das instituições junguianas solicita-se que o psicoterapeuta tenha pelo menos dois anos de prática clínica para se candidatar à formação. Nesse sentido, na formação do analista junguiano, a prática clínica é compreendida simultaneamente tanto como parte do processo quanto meta da formação.

A psicologia analítica compreende que a análise/psicoterapia é caracterizada pela relação terapêutica e não por um mero “manejo técnico”. Assim, a relação terapêutica implica num processo contínuo de transformação e aprendizado. Jung afirmou que “o encontro de duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam. ” (1999, p. 68) e, ainda

“cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332).

 

Assim, não podemos ignorar a importância da prática cotidiana da clínica tanto no processo de formação/aprendizado quanto no processo de individuação do terapeuta. Tornamo-nos terapeutas sempre e de novo.  Cada paciente é sempre um reinício, sempre uma nova jornada. Como diria o poeta espanhol Antonio Machado

 

Caminhante, são teus passos

o caminho e nada mais;

Caminhante, não há caminho,

faz-se caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho,

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se voltará a pisar.

Caminhante, não há caminho,

mas sulcos de escuma ao mar.

Assim, a formação e a prática da clínica refletem a personalidade de terapeuta. Por isso Jung afirmou “o grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada a priori; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. ” (Jung, 2017, p. 103). Não podemos separar o processo de formação do processo de individuação do terapeuta. Frente a isso, compreendemos a formação no seguinte esquema:

No processo de formação, a supervisão possibilita a integração e elaboração consciente dos demais elementos da formação. Assim, o processo de supervisão se debruça sobre a relação terapêutica, isto é, contempla, por um lado, a personalidade do analista/supervisionado em suas percepções, receios e inseguranças, auxiliando-o no afastamento necessário para integrar o que for possível ou compreender a necessidade de levar para sua análise pessoal. Por outro lado, na supervisão se esclarece e possibilita a reflexão para o supervisando fazer suas escolhas no manejo clinico, bem como construir demanda para direcionar o estudo teórico necessário para o analista/supervisando compreender o contexto simbólico de seu paciente.

Deste modo, podemos compreender que o processo de supervisão tem dois focos fundamentais:

 

A supervisão é uma modalidade especial de relação que, assim como o processo analítico, constela processos arquetípicos em diferentes níveis desde o (a) molde/ambiente, (b) a relação supervisor-supervisando; (c) constelações que cada caso provoca tanto no supervisor quanto no supervisando, como constelações nos demais participantes (no caso de supervisão em grupo). Por isso, exige atenção e cuidado especial pois lidamos com expectativas, desejos e futuro da formação do terapeuta. Vejamos alguns aspectos arquetípicos como dissemos acima

(a) A supervisão se enquadra, assim a psicoterapia, na perspectiva do temenos, isto é, o espaço protegido, espaço sagrado/ do sagrado, onde o supervisionando pode trazer suas angústias e percepções de forma segura. Do mesmo modo, o enquadre da supervisão é similar ao vaso alquímico, onde as transformações acontecem, mas, para tanto, deve-se administrar o fogo para que as operações ocorram. Administrar o fogo é fundamental pois a transformação de cada analista tem seu tempo certo, tem sua medida própria. No caso do grupo de supervisão, é importante também que os colegas administrem seu fogo, suas projeções e críticas. Pois, naturalmente todo grupo constela um self próprio, que traz tanto possibilidades criativas quanto defensivas da sombra. Acolher, integrar e transformar, faz parte do processo de supervisão e grupo.

(b) a relação supervisor-supervisando não deve ser compreendida como “mestre e aprendiz”, mas uma relação permeada por um intenso dinamismo arquetípico que, antes de tudo, deve ser regido pelo Eros, que aproxima, integra e une os dinamismos psíquicos. Sob esse aspecto, compreender que fantasias, medo, auto depreciação (exaltar o supervisor) e críticas, tanto em direção ao supervisor quanto ao grupo, precisam ser integradas e elaboradas, seja no grupo ou na análise pessoal. Tal processo é importante por apontar para uma perspectiva de poder –ou porque deve ser integrado, afirmado e potencializado no “empoderamento” do supervisando ou para ser revisto como uma postura do supervisor ou do grupo. É necessário compreender que Eros possibilita a integração dos conteúdos internos e externos, humanizando e possibilitando o desenvolvimento.

(c) Cada caso, naturalmente, mobiliza uma carga afetiva no analista. Diante do relato de um caso todos os presentes (supervisor, supervisando e participantes do grupo) são afetados, mobilizando uma carga afetiva que precisa ser compreendida. É preciso entender se essa mobilização, constelação do complexo, se refere apenas à história individual, a própria prática pessoal ou oferece elementos que contribuam para a compreensão do caso clínico. Conhecer e discriminar essas constelações é importante para entendermos o fenômeno da contratransferência, bem como o uso da mesma como complemento à percepção consciente – ou mesmo sendo elementos que o terapeuta precisa elaborar em sua vida pessoal.

 

Orientações Gerais

Para a dinâmica do grupo de supervisão ser proveitosa gostaríamos que ressaltar alguns  pontos fundamentais.

1 – Não é demais lembrar que é fundamental a confiança, logo, o que foi discutido sobre cada caso ou sobre falas ou dificuldades devem ficar no grupo.

2 – Todos os participantes podem e devem contribuir, contudo devemos ter cuidado para não inserir outros casos, que possam competir com o caso supervisionado, como se “comparações de casos”, por exemplo,

 

“Uma vez eu tive uma paciente que falou x,y z e eu fiz isso, eu fiz certo?”

ou

Aconteceu algo parecido com uma paciente, mas, no caso dela....”

Devemos evitar de fazer essas colocações justamente porque tiram o foco do caso supervisionado, por serem relatos não organizados são, frequentemente, pouco assertivos e para responder é necessário ter mais informações sobre o caso. E, muitas vezes essas colocações se voltam para uma dúvida pessoal e que não contribui efetivamente com o colega que apresentou o caso supervisionado. Pois, corre o risco de se tornar uma microsupervisão dentro da supervisão – ou seja, pode confundir um pouco o caso principal e a pessoa pode não ter a resposta para a sua dúvida.

Então, como a lembrança de um caso que atendido pode contribuir? A lembrança de um caso ou de uma situação similar, pode significar que uma percepção de uma dinâmica que não foi contemplada conscientemente no processo da supervisão, retornando como uma imagem/lembrança. Por isso, é importante que o participante que lembrou de um caso elabore, pense um pouco, traga a essência por exemplo, “está sendo discutido um caso onde há uma relação materna complicada, onde se discute um complexo materno”, nisso um participante lembra de um caso parecido, onde havia uma dependência materna, mas depois de muito tempo com o falecimento do pai, muita coisa negativa em relação ao pai apareceu e o processo do paciente avançou, pois o foco da mãe impedia de se trazer os conteúdos em relação ao pai. Ao invés de relatar todos os possíveis detalhes do caso, o participante pode elaborar a situação interna e questionar “e o papel do pai ou do complexo paterno, nesse contexto? ” ou mesmo “ essa relação materna não poderia ser uma compensação de um complexo paterno?”

Na dúvida, é possível falar em particular com a pessoa que apresentou o caso, ou anotar e elaborar melhor as ideias para trazê-las num outro momento. De qualquer forma, o exercício de compreender a mensagem subjacente a uma imagem ou lembrança é sempre importante.

Esse comentário não deve ser compreendo como uma “proibição”, apenas como um alerta para que o foco seja o caso discutido onde todos participem amplificando o caso, com o foco no mesmo.

3 – Sempre que possível na supervisão é importante um caso seja acompanhado ao longo de um período, não que seja obrigatória, mas, sugere-se que mesmo que o caso se desenvolva bem, é importante que seja reservado um tempo para acompanha-lo.

A Supervisão em 4 momentos

O processo de supervisão não deve ser visto de forma dogmática, pois, ela se desenvolve na relação com o supervisor e do grupo. Contudo, podemos ilustrar da seguinte forma:

(1) Apresentação   (2) Percepções Analíticas (3) Dificuldades (4) Síntese

1 – A apresentação do caso: Neste momento o supervisionando apresenta aspectos fundamentais do caso como: sexo – idade – estado civil – motivo pela procura da psicoterapia – se fez psicoterapia antes e o motivo – cenário familiar de origem (informações sobre pai – mãe – irmãos, e relacionamento com eles) – Desenvolvimento (lembranças da infância, adolescência etc) – manifestações psicossomáticas – transtornos psíquicos anteriores – sintomas e correlação dos sintomas, etc.

2 – Percepções analíticas: Neste momento o supervisando comenta acerca suas percepções, utilizando de seus recursos teóricos para começar a elaborar suas percepções acerca do caso, hipóteses diagnósticas e psicodinâmicas, tipologia psicológica. Naturalmente, esse momento é um pouco mais difícil para quem tem pouco tempo de clínica ou de estudo teórico, mas é importante que a reflexão acerca do caso possibilite ao supervisionando uma referência sobre seu desenvolvimento e compreensão.

3 – Dificuldades: É importante que haja uma certa clareza sobre os pontos que geraram incômodo ou dificuldades no manejo clínico para ter um ponto de partida e referência. Às vezes, partimos de uma incompreensão ou mesmo por estar à deriva no caso. De qualquer modo, o exercício de pensar, coagular a dificuldade ou incompreensão é um passo importante, para dar forma as imagens e fantasias que inconscientemente atravessam o atendimento.

4 – A síntese é o trabalho propriamente da supervisão, isto é, do encontro do supervisando com o supervisor. Na síntese, os elementos citados acima são integrados à experiência e consciência como possibilidade e ampliação do processo. Por isso, os três momentos anteriores devem ser feitos antes da supervisão, como uma preparação, sendo levados por escrito, possibilitando o tempo da supervisão seja um momento de redesenhar a compreensão do caso, ampliando e integrando processo do terapeuta/supervisando.

A supervisão é um passo importante para o amadurecimento de todos os envolvidos. Compreender a complexidade é fundamental para o melhor aproveitamento do processo, por ser um processo coletivo a responsabilidade é compartilhada por todos.

Referências

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: Entrevistas e encontros, Cultrix: São Paulo, 1984.

JUNG,C.G A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999.

JUNG,C.G Psicologia do Inconsciente, Petropolis: Vozes,. 1999.

JUNG,C.G Civilização em Transição, Petropolis: Vozes,. 2000.

 

 

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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