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Texto - Yoda vs Sombra– Comentários acerca da integração da Sombra

13 de Junho de 2017
Fabrício Fonseca Moraes


Nota: Este texto foi publicado originalmente no site Jung no Espirito Santo em 

Há algum tempo atrás, um vídeo chamou atenção da comunidade junguiana (pelo menos dos nerds junguianos) onde podíamos ver o confronto do Mestre Yoda com sua Sombra, o Lado Negro. Esse vídeo que, na verdade, é um fragmento do episódio 12 da sexta temporada, intitulado Destiny, da série animada Star Wars – The Clone Wars, foi exibido na TV americana em 07 de março de 2014.  Como nosso objetivo é fazer um comentário de tal fragmento (e. assim, invariavelmente faremos spoilers) eu convido ao leitor assistir ao vídeo legendado segundo o link abaixo, são pouco mais de 3 minutos (Infelizmente não consegui incorporar o video ao texto).

https://www.youtube.com/watch?v=lfS70QoGDZg -  Fragmento do Confronto com a Sombra, o Lado Negro.

https://www.youtube.com/watch?v=OMHW-P8x72E – Episódio completo em Inglês.

 

Yoda vs Lado Negro

 

Façamos um pequeno resumo . No vídeo vemos o Meste Yoda foi conduzido pelas cincos sacerdotisas da Força a uma caverna, onde ele seria testado.

Chegando na caverna ele percebe uma presença e escuta uma voz que o chama pelo nome, ao exigir que o desconhecido se apresente, Yoda é atacado, por pelo Lado Negro ou sua sombra, que diz:

- Yoda me odeia, sim... Yoda não brinca comigo mais! Yoda pensa que não sou digno!  (Ao desvencilhar-se do ataque, eles travam um dialogo)
 Yoda:  - Yoda não reconhece você!

Lado Negro : Não vê o que está dentro de você, não é?

Y: Eu Escolhi não dar a você poder!

L.N.:  Então você passa seus dias na decadência da guerra e com isso eu cresço dentro de você! Conheça seu verdadeiro “eu”! Me encare agora, ou Eu te devorarei!

A luta continua, Yoda ataca com veemência sua Sombra, ao achar que a dominou, pisando em seu pescoço, afirma

Y: Parte de Mim, você não é!

Mudando de posição e assumindo o ataque ao que Lado Negro responde:

L.N: Parte de você eu sou! Parte de tudo que vive! (Continuando o ataque feroz a Yoda) Porque você  odeia o que te dá poder?! Yoda pensa que não sou digno!

 Após muitos golpes. Yoda levanta e diz,

Y: Eu reconheço você agora! (o que assusta e faz com que o Lado Negro inicie outra investida, mas, Yoda usando da força, para o ataque e continua dizendo) Parte de mim você é, sim (e começa a atrair o Lado Negro para próximo de si) Mas poder sobre mim, você não tem! Sou eu quem controla você! Controle sobre mim você não possui! Meu lado Negro você é, e eu te rejeito.

Após tocar o rosto do Lado Negro, este desaparece. Uma sacerdotisa da Força aparece e afirma: Você conquistou sua Húbris, agora precisa encarar as tentações.

 

 

Esse fragmento do episódio é de fato bem arquetípico. O Mestre Yoda é conduzido a uma caverna. As cavernas são, por excelência, os símbolos da entrada e descida ao inconsciente, da “Katabasis” do herói, a descida a mundo inferior. 

O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a cuja dolorosa exigüidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo.(Jung, 2000, p. 31)

Na consciência, somos nossos próprios senhores; aparentemente somos nossos próprios "fatores". Mas se ultrapassarmos o pórtico da sombra, percebemos aterrorizados que somos objetos de fatores. (Jung, 2000, p33

 

A entrada na caverna aponta para o distanciamento do mundo da consciência e da segurança da coletividade e das relações com o mundo exterior. Entrar na solidão da caverna nos possibilita ouvir e ver o que antes não era perceptível pois, somos despojados do controle e das ilusões de soberania do ego, na “caverna” o ego encontra-se em paridade com os demais conteúdos do inconsciente, o que gera uma profunda ansiedade ao ego.  A Sombra do Mestre Yoda, afirma,

- Yoda me odeia, sim... Yoda não brinca comigo mais! Yoda pensa que não sou digno!

O contato com a sombra, isto é, o confronto com a sombra gera muita tensão para o ego. Especialmente porque a sombra se coloca como um adversário, apontando tanto  para o que foi reprimido ou rejeitado por não ser adequado a dinâmica da consciência e dos valores da coletividade. Quanto mais identificado com os valores da consciência coletiva for um indivíduo, maior será o distanciamento e o estranhamento que o mesmo terá da sombra. Devemos lembrar mestre Yoda foi durante muito tempo um ícone para a ordem Jedi (o mesmo viveu cerca de 900 anos), inspirando em todos a sabedoria e os valores cultivados pela ordem. Com as Guerras Clônicas, esses valores foram de fato superestimentos em face ao crescimento do poder do lado Negro da Força. Por outro lado, é fato também, que treinamento Jedi visava evitar ou reprimir tudo que pudesse ser relacionado com o lado negro da Força. Por isso mesmo Yoda afirma,

- Yoda não reconhece você!

Não reconhecer a sombra é justamente o que a potencializa, especialmente, por que nos distanciarmos de nós mesmos, de nossas limitações, temores e desejos, de nossa humanidade. Com esse distanciamento, podemos incorrer numa inflação do Ego. Assim, ocorre exatamente como a Sombra de Yoda afirma, “você não vê o que está dentro de você”. Esta afirmação é importante, pois, indica uma a unilateralidade da consciência que faz com que o indivíduo acredite “ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo” (JUNG, 2000a, p. 145). De fato, muitas vezes, nos identificamos com as fantasias que criamos em torno de nós mesmos, que são meios para nos nos defendermos do que não querermos perceber em nós mesmos. Yoda chega a afirmar “Eu Escolhi não dar a você poder!” Fingir que não a sombra não existe ou não “investir” na sombra não a limita nem a incapacita. A Sombra, o Lado Negro responde

 Então você passa seus dias na decadência da guerra e com isso eu cresço dentro de você! Conheça seu verdadeiro “eu”! Me encare agora, ou Eu te devorarei!

Tudo o que vivemos nos afeta de uma forma ou de outra. Quer queiramos ou não. Yoda podia controlar suas reações à guerra, controlar seus sentimentos, mas, não podia evitar que que eles existissem. Quanto maior a identificação com a luz da consciência, maior será a escuridão interior, maior será a Sombra. Augusto dos Anjos, em seu poema Versos Intimos diz,

 

(...)

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

(...)

                                                                                                      (ANJOS, 2001, p.85)

Yoda vivia um contexto de guerra, por mais que não aceitasse o lado negro da Força, sua liderança gerava efeitos destrutivos. Os Jedis tinham como principio usar a força como conhecimento e defesa justamente para evitar o lado negro da Força, raiva, ódio, vingança. Contudo, indiretamente ele produzia esse lado negro. O Lado Negro ainda apresenta uma ameaça interessante, afirma que se não for encarado é uma realidade, ou encaramos a sombra ou seremos devorados por ela, em neuroses e suas somatizações. No vídeo, Yoda tentou nega-la mais uma vez, dizendo que  “parte de mim você, não é”. Essa negação reforça a sombra que inverte sua posição e retoma o ataque.  

Parte de você eu sou! Parte de tudo que vive! (Continuando o ataque feroz a Yoda) Porque você  odeia o que te dá poder?! Yoda pensa que não sou digno!

Acredito que essa parte seja muito importante. Penso que a Sombra, o Lado Negro, não se refere a si mesmo quando questiona “porque você odeia o que te dá poder!?” Acredito que esse questionamento se refere a própria Força. A força é composta tanto pelo lado luminoso quanto o lado sombrio, negar o lado sombrio também é negar a Força. Trazendo para nossa realidade, a Vida é luminosa e sombria, negar os aspectos sombrios é negar a própria vida. A sombra, não é em si mesma negativa.   

Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras tradicionais. (JUNG, 1999, p. 83)

Aceitar a sombra é o primeiro passo em direção a totalidade, a integração e a um viver pleno.  A cena que se segue é importante, Yoda afirma,

Eu reconheço você agora! (o que assusta e faz com que o Lado Negro inicie outra investida, mas, Yoda usando da força, para o ataque e continua dizendo) Parte de mim você é, sim (e começa a atrair o Lado Negro para próximo de si) Mas poder sobre mim, você não tem! Sou eu quem controla você! Controle sobre mim você não possui! Meu lado Negro você é, e eu te rejeito.

Aceitar a sombra, reconhecer sua presença e a traze-la parto da consciência é um desafio enorme. Jung afirma que

Todos nós trazemos conosco essa sombra, isto é, o aspecto inferior e, portanto, oculto da personalidade, a fraqueza que pertence a toda força, a noite que sucede a ao dia, o mal do bem. Reconhecê-lo vem naturalmente junto com o perigo de sucumbir à sombra. No entanto, com esse perigo nos é dada a possibilidade da decisão consciente de não sucumbir a ela.(JUNG, 1999b, p. 86)

Aceitar, integrar a sombra não significa se entregar a mesma. A rejeição de Yoda, neste caso, não é uma negação, não é fechar aos olhos. Pelo contrario, rejeitar a sombra é aceitar a dualidade interna. Sucumbir a sombra, ou aceita-la incondicionalmente é ser tomado por ela – como foi com Anakin Skywalker – por isso, a escolha reconhecer e o toque na sombra, o toque como um gesto simbólico e transcendente que integra a sombra, trazendo a responsabilidade de saber quem se é, assim como, de ser responsável pelas próprias escolhas. Rejeitar a Sombra nesse caso é assenta-la no lugar que apropriado.  Para pensarmos essa rejeição podemos pensar nas tentações de Cristo, que interpretamos como a integração da Sombra, após a terceira tentação Cristo o texto diz “Jesus lhe disse: "Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto’". (Mateus 4:10)

Após tocar a sombra e integra-la, a sacerdotisa da Força aparece e afirma “ Você conquistou sua Húbris”.  A Húbris é o termo grego que pode ser traduzido como desmedida, excesso, orgulho, arrogância, vaidade, tudo que passa dos limites. A Hubris de Yoda certamente estaria vinculada ao lado luminoso da Força, a um ideal jedi. Reconhecer a imperfeição, reconhecer a sombra, é um ato de humildade de nos coloca em nossa própria realidade, em nosso próprio tamanho, de forma saudável. Para Yoda, reconhecer o lado Negro em si, aceita-lo, implica em um ato continuo de humildade. No dia a dia, vemos muitas situações em que as pessoas querem ser “boas”, corretas, agradáveis muitas vezes, numa compensação da própria sombra, buscam pelo extremo oposto negar o que há em sua sombra, isso só gera uma projeção ainda maior da sombra e uma incompatibilidade com a vida. Quase todas as tradições religiosas advertem contra esse excesso e a moderação, mesmo não sendo tão comentado no cristianismo de hoje, a bíblia diz

Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo? Não seja demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes do tempo? É bom reter uma coisa e não abrir mão da outra, pois quem teme a Deus evitará ambos os extremos.   (Eclesiastes 7:16-18 - NVI)

 Assim, perceber a nossa sombra, as nossas limitações, a nossa humanidade nos permite ter uma relação mais saudável com as pessoas, assim como com nós mesmos.

 

ANJOS, A.  Eu e Outras Poesias, L&PM Pocket: Porto Alegre. 2001

ECLESIATES in BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes:Petrópolis, 2000a.

___________ Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000b.

___________ Psicologia e Religião, Petropolis: Vozes, 1999.

___________ Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999b

 

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Abraços

Fabrício Fonseca Moraes

É psicólogo clínico junguiano. Começou a estudar a psicologia junguiana em 2000. Possui especialização em Psicologia Clínica e da Família (2007) e em Teoria e Prática Junguiana, pela Universidade Veiga de Almeida, RJ (2008). Curso em Hipnose Ericksoniana e em Tanalogia.

É coordenador do “Grupo de Estudos Aion - Estudos Junguianos”, em Vitória/ES desde 2012. Possui experiência com docência em ensino superior (graduação e pós-graduação).

Co-autor do Capítulo “Vida Simbólica: Considerações sobre a Religiosidade no Projeto Saúde-Doença” In: Jung e Saúde: Temas Contemporâneos. (Org.) Sandra Amorim e Fernanda Aprille Bilotta. 1ed. São Paulo: Paco Editorial, 2014.

Atende adolescentes e adultos e realiza supervisão clínica na abordagem junguiana.

Contato:

E-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br

Telefones: (27) 3235-8293 / (27) 9 9316-6985

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